Gravou na retina cada momento como se fosse maquina fotográfica, deixou a luz bater no corpo dela e refletir de volta a vista. Esperou queimar no fundo das orbitas como quem deixa queimar a foto no filme preto e branco. Fechou os olhos para revelar a imagem, depois guardou no portfólio da memoria. Foram lindas fotos feitas sobre corpo branco dela.
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
sexta-feira, 15 de novembro de 2013
João e Maria
Ela esqueceu os brincos aqui em casa. Duas argolas.
Talvez fosse a tensão da nossa primeira noite – a eletricidade sexual que causa arrepios na pele também leva o cérebro a curto-circuito. Quando se apercebeu, já estava longe, e sem o par de argolas. Eu encontrei os brincos no tapete do quarto, enquanto recolhia minhas roupas do chão.
Doze dias depois, na tarde modorrenta daquele domingo, liguei para a dona das argolas.
— Encontrei seus brincos.
— Puxa, achei que nunca mais os veria. Me custaram os olhos da cara.
— Passa aqui em casa para eu devolver.
Ela era uma mulher nascida para o sexo. Despida das roupas e do pudor, beijava minha boca fervorosamente. Para mim, ela era uma espécie de religião.
Trepamos até não sabermos mais de quem era qual mão, qual braço, qual pé. Mas havia algo além disso.
Foi a primeira vez que pensei em esquecer minhas outras mulheres.
Foi a primeira vez que pensei em casamento.
***
Naquela noite de domingo, novamente encontrei brincos no chão. Um par de corações feitos de opala. Foi então que tive uma epifania:
— Estamos brincando de João e Maria.
Ela deixava migalhas em forma de brincos no chão para encontrar o caminho de volta. Mas nessa nossa versão particular e luxuriosa da história, um devoraria o outro. Sem carochinha.
Quinze dias se passaram, tempo suficiente para minha Maria imaginar que eu pudesse não ligar mais. No jogo da sedução, o suspense é uma arma – o frio na barriga instiga ainda mais o quente do sangue. Saí com outras duas mulheres – uma delas, a morena índia esculpida e talhada à luxúria que trabalha no escritório em frente ao meu. Ia sair com uma terceira, mas minha Maria ligou.
— Acho que esqueci meus brincos na sua casa. Que cabeça a minha… Posso passar aí para apanhá-los?
Ela passou.
A noite passou.
A manhã passou.
Nós não passamos. Ficamos ali, na cama de lençol amarrotado por um dia inteiro, remoendo um desejo sem fim. Saíamos apenas para ir ao banheiro e á cozinha comer qualquer coisa, e logo voltávamos para o colchão.
No dia seguinte, meus pés pisaram duas plumas. Doeu a tarraxa fincando na sola. Era um novo par de brincos.
***
— Oi. O que vai fazer hoje?
— Nada.
— Vem em casa.
Ela chegou com fome, com fúria. Me apertava ainda no hall do prédio. Mordia. Machucava. Marcava. Cravava as unhas nas minhas costas. No quarto, berrava palavrões, me xingava de puto, me dava tapas. Mesmo esgotado, eu a desejava com cada fibra de músculo do meu corpo. Corpo este marcado pelas unhas de Maria, que me rasgara a carne e me roubara a alma.
Estávamos exaustos, mas nunca saciados. Aquela mulher deitada ao meu lado e divertindo-se com nossos corpos cansados haveria de ser minha.
— Estive pensando.
— Em quê? – ela perguntou, fechando sua pequena mão na minha
— Nisso. Em como nossas mãos se encaixam.
— Bobo. A gente se encaixa em tudo.
— Casa comigo?
Ela sorriu um sorriso redondo. Disse “sim” com um beijo.
O primeiro beijo como minha futura mulher.
O último também.
Quando entreguei o par de brincos de plumas a ela, Maria fechou a cara, apenas disse “não são meus” e bateu a porta na saída. Nunca mais retornou. Deve ter perdido o caminho de volta.
De: (papodehomem.com.br/joao-e-maria-na-cama)
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Amizade perecível.
Eu não vou mais atrás, ela está o tempo todo muito ocupada, sendo de todos do resto do mundo. Não sobrou espaço nenhum para quem era da antiga. Só tinha espaço para a gente como eu enquanto ela não era "popular".
quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Cigana
Vinha da necessidade do despego?
O que mudou? Porque voltou?
foi preciso perder, você perdeu e eu perdi,
Por onde você tem andado?
que vales, vilas ou cidades foram estas por onde você passou?
quem você encontrou nelas para te fazerem assim?
Tanto faz, afinal, nada mudou.
O vento que passou pela tua estrada passou aqui em casa também,
E levou com ele tudo de nós que não era verdadeiro.
Tão pouco sobrou,
tão pouco.
Sobrou.
Me deixa ler tua mão, para te mostra onde nossos caminhos se separam.
E me deixa entender que esta estrada não pertence mais a você.
Quem sabe em outra vida?
Agora você é só mais uma cigana do mundo, das ruas, como outra qualquer,
Mas alegre-se, não juro amor, mas adoro me perde entre as ciganas mundanas.
Bem vinda a este novo...
Seus novos amigos, seus novos amores.
Agora você é do mundo.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Só, verdade.
A verdade dói, mas liberta... Bem disse aquele quem falou: "Há de libertar para estar liberto", e este é um processo cruel e doloroso. Sentia-se ele confortável sentado na sua almofada de verdades não ditas, convicções forjadas e um agradável senso de puritanismo que o obrigava (ainda que não fosse tão difícil) a cultivar um largo e confiável sorriso no rosto. Vivia ela, na mentira do mundinho perfeito que criava para si, gerava verdades absolutas e falas convenientes aos personagens que habitavam o seu redor, fossem eles reais ou imaginários. Nesse teatro do vai e vem, o jogo de interesses mútuos rolava por baixo dos panos, por trás das mascaras e enganava os mestres, os alunos, os leigos, os espertos e a eles mesmos. A convicção da verdade de suas vidas fraldadas era tamanha que que viviam bem dentro de romances proibidos, contos de fada, disputas vencidas, vinganças arquitetadas, destinos cruzados e predestinados, era viver num mundo repleto de personagens sem pagar nada por isso: o vilão, a mocinha, o herói, o rival, os servos, senhores de terras, os cúmplices... Prisioneiros de suas ambições, mas, quando a verdade chega para libertar a quem pediu verdade e justiça, pouco resta além da dor da solidão. Então decidimos fugir, encarar o novo e desconhecido pois feliz é aquele que se aventura sem nada a devolver.. (Terras estranhas e solidão, eis o destino do viajante). Então na amargura de estar sozinho, conjura-se aos deuses clemencia pois, revelada a verdade, todos foram embora e não se viu o obvio: que no teatro das ambições cada um caminhou sozinho, onde nenhuma verdade foi dita nada de verdade aconteceu. Caminhamos o tempo todo só.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Ritual de desapego, o ritual da partida.
Caminharam um ao lado do outro o tempo que lhes foi permitido, o tempo que conseguiram estar juntos. Entre jogos e desafios, conversas e desabafos, existiu com os dois uma cumplicidade mutua, que ultrapassava os limites da linha ténue entre a amizade e o amor. Existia ali um carinho sem igual, que poucos podiam destruir ou mesmo ameaçar, num espaço de tempo que pertencia somente a eles. Houve quem tentou minar, quem da li tentou tirar proveito, até mesmo quem por vingança, ciumes ou inveja cuspiu no próprio prato em que comeu, amaldiçoou a boa sorte e deleitou-se em cama alheia. Ainda assim, de nada abalou entre os dois, ele gostava dela como a poucas gostava igual, e ela, dele certa vez quase se apaixonou, mas nunca houve nada entre eles, tão pouco os beijos a imaginação lhes permitiu fazer recordação, o que havia acontecido entre eles, estava mais no intimo que na história. Ainda assim, a roda do tempo da vida com o seu senhor veio lhes visitar, e como num jogo de sorte, propôs um novo desafio: disse o senhor do tempo em quanto girava a roda, que era a hora de mudar, que aquela história invejava até os deuses, e a relação dos dois tinha que por fim terminar. Ela decidiu, ele aceitou por respeito a ela, a partir da quele momento não mais se falariam como antes, não no mesmo timbre de voz ou na mesma linha de pensamento, não se olhariam mais nos olhos, não na profundidade de antigamente, contemplando a alma e compartilhando segredos, e principalmente, até que o tempo se esquecesse, não mais se tocariam pele com pele, corpo co corpo, nem ao menos um aperto de mão que não fosse em publico, seria para ela, tão pecaminoso como profanar o próprio espirito. Estava ela então inclinada ao celibato? Claro que não, o senhor do tempo antes de girar a roda, sussurrou em seu ouvido: ela teria tantos homens em sua cama o quanto quisesse, aquele ali a penas, da relação que invejava o olimpo, aquele não poderia ser consumado em amor e luxuria, todo o mundo além, a ela pertencia, junto a toda liberdade e felicidade do seu novo mundo, esse era o ritual de passagem dela, nova vida com novas pessoas e novas terras a desbravar. Dado o prazo da profecia a ser contado a partir da próxima volta da roda do tempo, onde valeria o novo acordo, olharam um para a face do outro com olhar e semblante de despedida, terminava ali muitas histórias vividas e outras que nem haviam começado, e ao contemplar no olhar um a alma do outro, decidiram se despedir e se amar pela primeira e ultima vez. Foram então as mãos que tocaram o corpo um do outro, os pelos que se arrepiaram ao toque da pele, a nudez revelada para ser gravada com carinho nas retinas, foi a boca que sentiu por fim, depois de tanto querer, o sabor da outra boca, e os corpos que por um breve instante se tornaram um só. Foi como cruzar pela primeira e unica vez duas linhas que vinham em paralelo a muitos anos. Num ponto de convergência, em fração de segundos, contemplaram juntos a face de Deus, e quando voltaram em terra, já não eram mais os mesmo, estavam prontos para partir, prontos para deixar ir, sem nada a esperar e com os corações leves de certezas e paz. Viveram ali, antes do tempo os separar o momento mais intimo da sua amizade, e na cumplicidade que os uniam, fizeram juntos o ritual do desapego, da partida. Quando abriram os olhos, não havia mais o senhor do tempo nem sua roda intolerante, olharam entre si, e perceberam que não eram mais os mesmo e nem o lugar em que estavam, familiar aos dois. Não mais se tocaram ou trocaram olhares como os de antigamente, só assim valia o acordo feito entre eles e o tempo, mas viveu cintilante dentro de cada um, desde ritual de despedida, a certeza da missão cumprida, e sempre que pensavam um no outro, a distancia, estavam novamente juntos, cúmplices de uma vida bem aventurada, e com uma leveza na alma que invejaria os deuses de qualquer mitologia.
Ritos: Passagem, Raiz e Desapego
Seguimos uma vida de rituais, alguns como o de passagem, que nos transforma, é como a borboleta que antes de ganhar asas foi lagarta e no seu ritual de transformação, passou longos dias envolta em um casulo vendo apenas o seu interior. Ou o menino que saiu de sua cidade e se forjou homem em terra estrangeira, de língua estranha e de poucos amigos, este também teve em sua viagem um ritual de anos, de passagem e de mudança. A também o ritual que nós faz ficar, que cria raízes, é o trote do adolescente ao chegar na faculdade comparada ao faraó mumificado, para ficar eternizado na história, pode ser também as palavras de eu te amo, que faz quem ia querer ficar. Por fim, a mais um ritual, que só pode vir depois de todos os outros, o do desapego, da partida, o que termina com as histórias não acabadas, ou então que define de uma vez o que não estava definido, é o ritual que liberta, que revela, o apocalipse de um momento na vida de cada qual, é o homem abandonado que queima as cartas e fotos da mulher que o abandonou, é a adolescente que abdica a tudo para esquecer um único amor não correspondido, é o condenado pedindo misericórdia a Deus antes de ser executado, é o samurai enquanto desembainha sua espada antes de uma luta de morte, é a extrema unção que damos a nossa própria alma quando dizemos adeus.
Toda Mulher é uma Puta
Toda mulher é uma puta. Inclusive a sua mãe. Toda mulher é uma puta. Inclusive a sua. Toda mulher é uma puta. Inclusive. Toda mulher é uma puta, até que se prove o contrário. Toda mulher é uma puta e cobra barato. Toda mulher é uma puta e tem seu valor. Toda mulher é uma puta e merece respeito. Toda mulher é uma puta, graças a Deus.
Toda mulher é uma puta. Quando dá na primeira noite. Quando não dá no primeiro encontro. Quando dá o cu. E quando não dá também. Toda mulher é uma puta se posa pelada. Se sai de sainha. Se sai sem calcinha. Toda mulher é uma puta quando finge o orgasmo. Quando cospe. E quando engole também. Toda mulher é uma puta chupando buceta.
Toda mulher é uma puta maldita quando fecha as pernas pra você. Toda mulher é uma puta desbocada quando fala palavrão. Atrevida quando te desafia. Sem-vergonha quando dá mole, quando dá de quatro, quando dá motivo. Quando apanha. Calada. E quando apanha. Gritando. E quando denuncia. Quando enfrenta. Quando reage. Puta mãe solteira. Quando faz um aborto, quando tira o útero. Quando joga a criança no lixo. Puta.
Toda mulher é uma puta se senta de perna aberta, se peida, se arrota, se coça o saco. Quando ganha mais que você. Quando é mais inteligente, mais sexy, mais bem sucedida, mais vivida e mais gostosa que você. Toda mulher é uma puta quando manda em você. Toda mulher é uma puta quando come mais mulher que você.
Toda mulher é uma puta mesmo sendo um cara. Mesmo se tiver barba e bigode, um pau enorme e pentelhos grossos. Seu vizinho e seu irmão. Toda mulher é uma puta se for o seu zelador. Todos somos umas putas quando estamos. Amargos, cansados, famintos, angustiados, magoados, desenganados. E quando temos dor de barriga. E quando pisamos no calo de alguém. Quando tudo dá errado. E na vitória, somos putas. E ganhando na megasena. Putas!
Então somos todos umas putinhas arrombadas no inferno e nos restaurantes fast-food. No alto do Himalaia e rodando bolsinha na alça de acesso da Marginal. Afinal puta que é puta não conhece fronteira, moral nem contra-mão. Puta que é puta não pede perdão. Nem permissão. Puta que é puta paga sua própria fiança. E sabe os filhos que tem.
De: Deproposito.com
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Sobre o homem que começou a voar depois de conhecê-la
Quando se conheceram e gostaram tanto um do outro, ele escutou melhor as coisas e em seus olhos as linhas do mundo ficaram mais acentuadas do que antes. Ele ficou mais inteligente, mais desperto, e imaginou mais coisas para preencher os seus dias. Considerou atividades que antes lhe pareciam vagamente intrigantes, mas que agora pareciam urgentes e que, ele pensou, deviam ser feitas com sua nova companhia. Ele sentiu vontade de voar em equipamentos levíssimos com ela. Sempre se sentiu intrigado por planadores, pára-quedas, ultraleves e asas-deltas e agora sentia que este seria um aspecto de sua nova vida: que formariam um casal que voaria nos finais de semana e nas férias, em pequenas aeronaves. Aprenderiam a terminologia. Entrariam em clubes. Teriam algum tipo de trailer ou uma van bem grande, em que se transportariam a novos lugares para apreciarem lá de cima. O tipo de vôo que o interessava era próximo ao solo - menos de trinta metros acima da terra. Ele queria ver as coisas se movendo rapidamente abaixo dele, queria poder acenar para as pessoas lá embaixo, ver animais selvagens correndo e contar os golfinhos que nadavam para longe da praia. Sua esperança era de que esse seria o tipo de vôo que ela quisesse fazer também. Ele ficou tão fixado na idéia dessa pessoa, deste vôo e desta vida cingida, que não tinha certeza do que faria se não conseguisse realizá-la. Mas era estranho, ele pensou, que embora a noção de tal vôo fosse dele e que ele seria o responsável pela realização deste plano, ele precisava de outra pessoa, esta nova pessoa em seu mundo, para poder implementá-lo. Ele não queria realizar este vôo sozinho; preferia não voar a voar sem ela. Mas se pedisse para ela acompanhá-lo e ela expressasse reservas ou não ficasse inspirada, ele ficaria com ela? Será que poderia? Ele decide que não. Se ela não o acompanhar na van com as asas cuidadosamente dobradas, ele terá de partir, sorrir e partir, e então olhará novamente. Mas, quando e se ele encontrar uma outra companhia, ele sabe que seu plano não vai ser de voar. Será outro plano com outra pessoa, pois, se ele voar próximo à terra, será com ela.
De: (A Fome de Todos Nós - Dave Eggers)
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Querer, deixar ir, esperar vir, sem esperar nada. Porque você era a diferença.
Os cabelos que me perfumavam a alma,
A textura de pele que me arrepiava ao toque
O canto da boca que fazia meus desejos
E o corpo liso branco que me alimentava as fantasias
Eram suas ideias que nos afinizavam
Era o meu gostar que te fazia sorrir
Foi o teu sorrir que me fez ficar
E nossa sinceridade que te permitiu partir
Havia carinho, havia desejo, havia respeito, havia amizade
Mas acima de toda cumplicidade e confusão
Existia uma característica que competia só a nós
No nosso gostar, existia lealdade.
Era te querer de mais, te deixando ir, esperando vir,
Sem esperar nada.
Nossa história só a gente fazia.
quarta-feira, 25 de setembro de 2013
Estrada.
Eu seguro a sua mão na minha, para que juntas possam fazer, o que as minhas não vão fazer sozinhas.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Fé e Paciência
Plantar uma semente e ver a arvore crescer é um exercício de fé e paciência... Há de se preparar cuidadosamente a terra, escolher entre as melhores sementes, enterra-la e depois regar com atenção e carinho. É preciso saber ouvir e falar com a planta. A satisfação de ver a transformação da pequena planta em uma arvore madura leva anos, mas pode vir a valer mais do que expectativa de comer os seus furtos no futuro. Há quem apenas cultive, há quem apenas roube os frutos das arvores alheias sem o trabalho de cuida-la anos a fio, mas há também quem merecidamente plante, acredite e saboreie dos melhores e mais maduros frutos da arvore depois de adulta. Tudo é fé e paciência.
quarta-feira, 18 de setembro de 2013
Tristeza incolor
Tuas pinturas estavam tão belas...
Me lembro bem, colorimos juntos os desenhos da sua vida
Eu vi teu traços infantis ganharem formas de mulher
Assisti você com um sorriso sapeca, combinar os diferentes tons de tinta
E fazer arco-iris a golpes de pinceis
Vi também as suas telas em tons de cinza chumbo, quando a melancolia lhe batia
Nessas horas eu esperava você se distrair, e derrubava "acidentalmente" um frasco de tinta azul ou amarela,
Quando você reparava, tua tristeza tinha pingos de chuva com tom de morango ou kiuwi,
Era o tempo de você borrar minha testa com teu pincel, falar um palavrão e depois sorrir,
fazia sol de novo.
Certa vez a tristeza chegou pisando firme em sua casa, e trancou as portas depois de entrar.
E tu porque escondera as tintas de mim, me deixou sem saber o que fazer,
Pela janela do atelier, vi você chorar por dentro, ao apagar todas as tuas pinturas.
Eu que fui teu fã, sofri calado sua solidão em preto e branco.
Quando decidir re-pintar os teus quadros, por favor, não se esqueça de usar as cores que inventamos junto.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Está ai o tempo para provar que é verídico.
Me responsabilizo por cada decisão minha, cada gesto ou atitude eu tomo de maneira lucida e consciente. Se é na tua direção que vou, é porque na tua direção escolhi seguir.
Cada passo meu no teu flanco é guiado pelo pensamento de que te quero perto, sem tempo nem presa para chegar ou parti, e o que me guia é o perfume dos seus cabelos, pois caminho até ti de olhos fechados confiante no destino de te ter um dia.
Por que escolher essa direção com tantas outras a tomar? Porque em nenhuma outra delas estará você, talvez outra pessoa, tão especial quanto, mas você, com suas ideias, pensamentos, carinhos e sentimentos, só está nesta direção, onde meus pés seguem descalços, num infinito de esperanças onde você é mais que bem vinda, é unica e imprescindível.
Desculpa se te faço se sentir sem graça, só te peço que não se esqueça que existem muitas pessoas no mundo que te querem bem, que você é intensamente desejada, e que se permitir, pode ser amada e cortejada, com respeito carinho e dedicação que merece.
E que uma dessas pessoas que te quer, assim.... Sou eu.
domingo, 15 de setembro de 2013
Tempo-estade
Em um minuto do céu azul bebe fez-se um negro intenso, eram cúmulos nimbos a se moverem em grande velocidade, excitadas por fortes ventos, no seu interior viam-se raios cruzando de um extremo ao outro, positivo e negativo se atraiam em arcos voltaicos.
Caos e tormenta faziam uma paisagem aterrorizadamente linda.
...
Apenas sentei e olhei o que parecia ser o fim do mundo, e quase vi um furação se formar, Katrina, Andrea ou Agatha, poderia ser qualquer uma delas.
A tormenta veio com o doce pedido do tipo: "vem e se entrega, que o medo termina".
Continuei sentado na certeza de que tudo passa.
Momentos depois, os mesmos ventos que trouxeram as funestas nuvens as dissolveram, e o céu que se revelou era tão límpido e o ar tão leve quanto o de antes. O arco-iris que se revelara era o bônus já não esperado, mas merecido por se entender o tempo da nossa natureza.
Tudo passa.
Partir e despertar.
Eram olhos marejados,
cansado de tanta mentira e de tanto pouco caso,
ele em fim despertou, e desperto percebeu que era usado.
"Entra no ônibus e pega o ultimo lugar, põem a tua bagagem no banco do lado, para ter certeza que ninguém sentará contigo, e ali sozinho, definha sereno pela viagem, pois serão três, oito, doze ou vinte, horas ou anos, e aprecia com gosto a paisagem, pois a história que vai passar voando pela janela, nada mais é que a história da tua vida, e se o ônibus parar para abastecer em algum lugar, desce e ama alguém como se fosse única, pois a viagem é só de ida."
terça-feira, 10 de setembro de 2013
O homen do deserto
"Desbravar o deserto não parece uma ideia muito segura, devesse cobrir-se de panos para não desidratar, saber onde andar para evitar as tempestades de areia contra o flanco, além de calcular cuidadosamente a posição do sol para não se perder por completo no grande cemitério de areia e sol."
Todos sabiam que ele desbravaria as temerosas e traiçoeiras dunas de insegurança que se impunham em sua frente, ele tinha que buscar o que era seu, ele queria buscar o que lhe pertencia, ou pertenceu. Mas já no meio do caminho, certo de que morreria sem nada, com a boca cheia de amargura e frustração, se jogou de joelhos ao chão, fechou os olhos e imaginou sentir a brisa do mar acariciar-lhe o rosto, era ali que a jornada terminava, no meio do deserto de areia, mas a parte leve do seu coração estava em alto mar. Antes de sucumbir ele sorriu chorando por ter tudo ao mesmo e ao mesmo tempo não ter nada.
Do homem que quis se lançar ao mar para chegar até ela.
Impaciente esperou o tempo passar, era difícil se dividir entre dois mundo tão parecidos e tão destintos, assim vivia em dicotomia, e logo, não vivia inteiro. Uma estava em terra, a outra no mar, e a ele o coração de nenhuma delas pertencia, era como ter tudo e não ter nada, cada uma protegida pelo seu senhor.
Na frustração do tempo que passava cada vez mais rápido, via a vida escorregar pelos dedos, como as areias do deserto onde uma se escondia, ou talvez, como as águas salgadas do mar onde a outra se ocultava, assim seu coração pertencia as duas, mas ele dava sempre mais do que podia receber.
Já sem um coração para chamar de seu, ele pensou: e se ele se lança-se ao mar, decidisse encarrar o senhor das águas e toda a sua maldade, só para vê-la sorrir, será que assim, um pouco do coração dela, enfim seria dele também? Fechou os olhos e planejou a jornada, imaginou o inimaginável por ela... Eram ondas imensas, num mar de incertezas, uma verdadeira tormenta de impossibilidades, e sua única segurança no seu pequeno leito flutuante, era a certeza de que ela estaria numa ilha qualquer perdida pelo mundo. Ele venceria o senhor dos mares, desembarcaria numa praia de areias finas e pequenas conchas, quando se encontrassem ela abriria um sorriso gostoso, seus cabelos voariam ao vento, e em um abraço apertado, ela lhe daria de bom grado um beijo no canto da boca.
Ele atravessou um mar inteiro, para vê-la sorrir.
quinta-feira, 29 de agosto de 2013
Até as estrelas.
O que me impulsiona? Meus sonhos, a excitação do novo, a concretização do ser, deixar algo de bom para o meu mundo. Eu fechei minha mala, não coloquei nela mais do que pretendia usar, pois queria que tivesse espaço para guardar nela o que eu achasse de bom no meio do caminho, o peito apertou quando pensei em nós todos longe soltos no mundo, cada um com seu qual, seus afins, e seus futuros, me lembrei de cada momento das nossas amizades, pensei em chorar, depois sorri, o mundo guardava tanto para nós, tínhamos tantos planos pela frente.
Antes de fechar a mala, guardei em uma pequena caixinha todas as nossas fotos, fizemos tantas fotos juntos. Então me lembrei de uma vez que você disse que pássaro solto, não esquece da gaiola, nem foi para mim, mas deixei a pequena caixa guardada no fundo do armário da minha velha casa, se um dia eu voltasse, seria para rir gostoso dessas recordações que fazem parte do que somos.
E quanto a gente, quem sabe, a gente se esbarra por ai, o mesmo destino que nos une, nos separa, e pode unir de novo, afinal, o que é verdadeiro mesmo, nunca morre, estaremos junto pelo tempo que for, onde quer que for, até as estrelas.
segunda-feira, 26 de agosto de 2013
Partiu?
Partiu conhecer o mundo?
Vamos pedir as contas, fazer as malas e cair no mundo, de peito aberto, sem data pra voltar.
Deixa que o sol vai nosso anfitrião, e a birosca em que vamos fazer a nosso primeira parada vai ter comida com gostinho caseiro, feita num forno a lenha, por uma senhora simpática com marcas de vida no rosto.
Vamos cair na estrada? Quando der de asfalto duro, e outras vezes de terra e barro, sorriso no rosto e cabelos ao vento.
Põem uma música para tocar e peguem os óculos escuros, pois vai estar fazendo sol de verão.
Vamos ver cidades, ruínas, cachoeiras, gente estranha, gente nova!
Bora participar de rituais estranhos e tradições milenares,
Enlouquecer numa festa de uma ilha qualquer, visitar um vilarejo no Camboja, acampar no Havaí, subir de gaiato as pirâmides do Egito, fazer bonecos de neve feito crianças no Himalaia, comer pizza feito gordos na Itália, andar de trem na Alemanha e pular de para-quedas em Dubai.
Mas vamos juntos...
Porque se formos sozinhos, não vamos estar vivendo, vamos estar fugindo.
Juntos esquecemos o resto do mundo.
Vamos partir para conhecer o mundo, juntos?
sábado, 24 de agosto de 2013
Pacto de Sangue e liberdade.
Eramos reis e rainha com todas as nossas riquezas. Cruzamos os tempos com glórias e honras, conquistando terras desconhecidas e desbravando reinos hostis. Cruzamos espadas contra inimigos e mesmo entre nós, cavalgamos uns ao lodo do outro, e compartilhamos da mesma mesa, das mesmas armas, da mesma cama, do mesmo corpo. Assinamos nossa passagem para o inferno com um pacto de sangue e ainda assim perecemos, visitamos as trevas e voltamos juntos ao nosso castelo. Naquela loucura eramos um só. Vivíamos as mais sinceras verdades dentro das mais dolorosas mentiras, mas todo o nosso ouro valia a pena, toda a nudez e todo o pecado eram perdoados com louvor. Eramos prisioneiros da nossa própria liberdade.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
holocausto interno.
Passava da hora de partir, e desesperado ele colocou tudo que podia na mala, talvez não tivesse outra chance de fugir dali e cada segundo naquele lugar, era estar mais perto da morte. Pegou o que podia, tudo que estava ao alcance, iniciou sua varredura com o que lhe parecia mais importante, algumas medalhas, apenas as mais importantes e significativas, jogou la dentro seus diplomas, certificados e todo tipo de comprovante que tinha, abriu desesperado sua gaveta de preciosidade e pegou la de dentro pequenos objetos que lhe foram amuletos desde a infância, inclusive uma velha espada enferrujada que se escondia atrás de uma porta, por fim no grande quadro que ficava fixado na parede da sala, começou a recolher uma serie de fotografias que nele ficavam penduradas, apressadamente as recolheu, e colocou-as na mala, quando mal lhe sobrava espaço, e tão pouco lhe restava tempo, ele se desesperou em procurar a ultima fotografia que faltava, nela estava gravada uma garota branca, de olhos marcantes, quase nua. Não a encontrava, não se recordava nem ao menos onde pudera te-la guardado, enquanto procura ouviu a buzina da sua condução, que abandonava a cidade sem ele... Já não importava mais, preferia ficar a partir sem aquela recordação. Ele continuava a procurar a foto da garota, quando ouviu ainda ao longe, o som dos aviões que traziam as bombas.
domingo, 11 de agosto de 2013
Uni-Verso
Desdobra-se toda a complexidade do universo num único verso. "É que os olhos eram as portas da alma".
"Eles eram tão pequenos naquele imenso universo, que resolveram se separam para poder ocupar mais espaço... longe um do outro, o tempo os engoliu com a fome de quem devora um Deus. É que era um universo grande de mais para se viver sozinho"
Apague as fotos, tire os óculos, e queime as flores secas.
Imagine que eu morri,
Que todas as lembranças que construirmos juntos ficaram só na lembrança
Lembre-se dos dias alegres juntos, e dos problemas que compartilhamos,
Mas apenas lembre-se, pois eles serão para sempre apenas lembranças,
Me imagine como uma arvore, que lhe fazia sombra e te enfeitava o jardim,
Mas que agora não existe mais,
Não há nem se quer os restos das raízes ou do tronco,
Pois morri para você de todas as formas, e no mundo que viverei, você não terá acesso,
Nem saberá da existência deste lugar.
Lembre-se do tom da minha voz, e da presença da minha companhia,
Mas lembre-se agora, pois com o passar do tempo, ela será tão fraca em sua mente
Que você nem conseguira distinguir, se eu fui real ou criação dos seus devaneios.
Nesse momento,
Você poderá sorrir feliz,
Pois em fim não nos conheceremos mais, e será como se nunca tivéssemos nos encontrado.
Então pare de sofrer e sorria,
Agora, apenas imagine que eu morri.
sexta-feira, 9 de agosto de 2013
Vivicídio.
Havia tudo ali e um pouco mais, era sangue, ossos e carne, dilacerados com impacto da queda, isso ao menos era o que os curioso viam chocados, enquanto olhavam o corpo daquele que pulara do vigésimo segundo andar. Alguém tentando amenizar a tensão no ar em meio aos curiosos disse que ele morrera ainda no ar, ainda em queda, e que o corpo certamente chocar-se já sem vida no chão, outro cochichou em meio a multidão que se formava em volta do que restara da quele ser, que certamente havia ocorrido uma fatalidade, a pessoa limpava a janela quando acidentalmente cairá por um descuido, e uma senhora consolou uma moça chocada dizendo, "foi a vontade de Deus, havia chegado a hora dela", e todos eles, estavam errados. Quando ficou em pé, no parapeito do edifício, já estava morto, morrerá a cada dia, enquanto dizia sim a todos os não que tinha vontade de dizer, morria a cada dia todas as vez que viu calado o errado acontecer e se submeteu ao conforto do silêncio, morria quando acordava as cinco da manhã para uma vida mais ou menos, com sonhos mais ou menos, em dias mais ou menos e assinara sua sentença de morte quando se apaixonava pela pessoa errada e era feito de otário aceitado esmolas de amores frustados, quando era traído e aceitava, e mesmo quando sorria por sentir vergonha de chorar. Quando abriu os braços, fechou os olhos e sentiu o corpo inclinar-se para frente, em direção a imensidão que havia entre ele e o chão a vinte e dois andares a baixo, foi quando sentiu, como não sentia a muito tempo, a vida correr em suas veias, sentiu o calor do anos alegres que teve na infância abraçar-lhe o corpo, lembrou-se das noites de natal, reunido com a afamilia em volta de uma mesa farta, recordo-se do seu primeiro beijo, roubado quando ainda criança, e na mocitude da seu primeira paixão e também da primeira fez que fez amor, de quando se formou na faculdade, do primeiro emprego, do friozinho na barrida de dirigir um carro pela primeira vez, das aventuras com os amigos, das conquistas que levava no fundo memoria guardadas como troféus, das viagens que fez e da quele amor especial, que carregou com ele em segredo a vida toda. Em menos de quatro segundos, viveu como há muito não vivia, e pouco antes de tocar o chão, desejou não ter pulado, agradeceu a vida que teve, e lamentou não viver a velhice. Lamentou não dar valor ao que teve.
Desculpa
Então vem, pega uma xícara de café e fica mais um pouquinho, tudo bem que você não beba, pode ficar só para sentir o cheirinho comigo, o importante é você ficar. Sua presença me alegra, me enche de vida, e me faz suspirar com quem suspira num domingo a tarde sentado na varanda, vendo o tempo passar sem pressa. Porque você tem o talento de desacelerar o meu tempo, e de deixar tudo com um gostinho especial no final, tipo aquele docinho gostoso que a gente deixa para comer por ultimo, só para poder ficar sentindo o gostinho dele que fica na boca ate a gente se esquecer que acabou... Desculpa, não faço por mal... Talvez, seja só afeto de mais, e eu não saiba as vezes, o que fazer com ele.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Da menina que era livro
Era um livro tão belo, não tinha capa dura, mas sua face era de uma delicadeza tão grande que lhe fazia perfeito. Não era dos maiores livros, não precisava de tanto volume, o que realmente valia era o seu conteúdo, sabe aquelas histórias que você começa a ler, e não consegue mais parar, e que a cada página, a cada capitulo que é lido você se vê mais apaixonado, e cada vez mais preocupado, afinal, você não quer de jeito nenhum que o livro acabe. Eram páginas de uma textura deliciosa e um perfume inesquecível... Escrito em letras desenhadas, aquele era o livro mais bonito que já tinha lido.
...
Ela era uma garota tão bela, não tinha grandes seios ou um quadril robusto, mas seu corpo era de uma delicadeza tão grande que lhe fazia simplesmente perfeita. Ela não fazia o tipo mulherão, nem precisava, o que mais seria preciso além do que ela era por dentro? Sabe aquelas pessoas das quais você não cansa, que quer estar ao lado o tempo todo, do tipo que você aceitaria viver qualquer aventura, por mais louca e perigosa que seja, e que a cada dia você se vê mais apaixonado? E que só de pensar que um dia ela pode não esta mais por perto, já dói lá no fundinho da alma? Então, é ela. A garota da pele mais deliciosa que já vi e de um perfume inesquecível... Era o brilho dos olhos, o perfume do cabelo e o desenho da boca, aquela era a garota mais linda que conheci.
Ela era o livro mais belo que já quis ler.
Valia a pena esperar o tempo passar.
Ela era tão nova, um botão de ouro num mundo onde não tinha tempo mais para mim... Levariam alguns anos até que o botão de rosa abrisse, e seu perfume pudesse ser desfrutado, mas desde já, tão nova e com cheirinho tão doce, já esbanjava uma sensualidade sem igual no olhar. Havia maturidade no jeito de falar, pensar, e agir apesar do jeitinho essencial de menia, havia um pouco de maldade naquele sorriso, e principalmente uma boa dose de desejo no sabor que senti do canta da boca que beijei.
Per-Feição
Eram curvas que eu não conhecia, texturas que eu nunca havia sentindo, era o gosto de um beijo que existia somente na minha imaginação, era um corpo de pele lisa e branca completamente nu, que habitava apenas em meus sonhos... Nos meus desejos fazíamos o inimaginável, eramos amigos, eramos amantes, eramos ousados, fazíamos amor em tudo que era canto, de todas as formar, de tudo que é jeito de se amar. Ainda nos meus sonhos eramos carne na carne, corpo colado com corpo, sussurros e gemidos de prazer, confidencia e confiança, mas só nos sonhos, porque no mundo real ela era tão perfeita, quanto o sentimento de amizade que nós permeava. Aos meus olhos, tudo com ela era perfeição, até os sonhos.
domingo, 17 de março de 2013
Do começo de 2012, eu acho.
Chovia naquela manhã, o tempo ainda nublado, ele já não tinha mais certeza de a quanto tempo chovia, mas tinha numa recordação distante a lembrança de uma tarde ensolarado. Apesar disto, era uma manhã gostosa, o aroma do café preenchia o quarto, e ele podia sentir também o cheiro de torradas. Abriu um sorriso, era sinal de que ela ainda estava lá. Levantou-se, vestiu uma camisa que repousava sobre uma cadeira então desceu as escadas, a grande janela de vidro lhe permitia ver as arvores do jardim salpicadas, com as gotas do orvalho matinal, e também, o gramado encharcada com o chuvisco fino que caia. Como a sala emendava diretamente com a cozinha, mesmo antes de chegar ao final ele já pode vê-la, sentada sobre o balcão da cozinha, na sua mão uma torrada com algum tipo de geleia, provavelmente amora, e na outra um pequeno livro, ao seu lado uma caneca, não era café, ela sempre gostou do cheiro perfumado que o café exalava quando estava sendo feito, mas nunca apreciou saboreá-lo. Quando atingiu final da escada ela levantou os olhos para ele, apresentavam uma grande íris pois nos dias nublados a claridade sempre a atrapalhava enxergar, e suas pupilas ficavam pequenininhas. Ela estava vestia um baby dool e usava apenas uma calcinha branca e preta da cintura pra baixo, estava descabela, como sempre pelas manhãs, quase como a juba de um pequeno leão, ele olhou-a e sorriu discretamente. Quando chegou na cozinha, ela largou o livro e a torrada, levantou-se e lhe deu um abraço apertado e um beijo no rosto antes de dizer:
- Só esperei
pra tomar o café da manhã com você, e te agradecer a noite de ontem.
Ele nada falou,
não era preciso, apenas a olhou-a fundo nos olhos, e abriu um sorriso. Sempre
soube que ela era assim, tipo cigana, do mundo, e sempre foi isso que ele mais
amou nela, mas ainda assim, sorriu, afinal, desta vez ela havia esperado pra se
despedir e tomar um café da manhã com ele.
No dia seguinte
fez sol, e enquanto ele tomava seu café sozinho, olhou pela janela e pensou,
onde estaria ela agora? Tanto faz, ela é esperta, certamente está por ai,
vivendo, e logo voltará a chover de novo, quem pode saber do tempo? Ele fechou
o jornal que lia, tomou o ultimo gole do café, e foi viver sua vida.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
...
"...fosse o orgulho ou o medo do futuro, ele não deu um passo sequer naquela direção. Não fez ligações, não mandou mensagens, nem ao menos leu o horoscopo do mês para saber suas previsões.. assim se foram horas, dias, semanas talvez meses. Não dava pra voltar atrás, ele não podia e nem queria, mas a cada passo que dava na direção do seu novo destino, em silencio, uma pressão lhe esmagava o peito e tirava o sono. Ele nada aprendeu com aquilo, apenas descobriu que a pressão no peito se chamava saudade."
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