quinta-feira, 24 de outubro de 2013
Cigana
Vinha da necessidade do despego?
O que mudou? Porque voltou?
foi preciso perder, você perdeu e eu perdi,
Por onde você tem andado?
que vales, vilas ou cidades foram estas por onde você passou?
quem você encontrou nelas para te fazerem assim?
Tanto faz, afinal, nada mudou.
O vento que passou pela tua estrada passou aqui em casa também,
E levou com ele tudo de nós que não era verdadeiro.
Tão pouco sobrou,
tão pouco.
Sobrou.
Me deixa ler tua mão, para te mostra onde nossos caminhos se separam.
E me deixa entender que esta estrada não pertence mais a você.
Quem sabe em outra vida?
Agora você é só mais uma cigana do mundo, das ruas, como outra qualquer,
Mas alegre-se, não juro amor, mas adoro me perde entre as ciganas mundanas.
Bem vinda a este novo...
Seus novos amigos, seus novos amores.
Agora você é do mundo.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
Só, verdade.
A verdade dói, mas liberta... Bem disse aquele quem falou: "Há de libertar para estar liberto", e este é um processo cruel e doloroso. Sentia-se ele confortável sentado na sua almofada de verdades não ditas, convicções forjadas e um agradável senso de puritanismo que o obrigava (ainda que não fosse tão difícil) a cultivar um largo e confiável sorriso no rosto. Vivia ela, na mentira do mundinho perfeito que criava para si, gerava verdades absolutas e falas convenientes aos personagens que habitavam o seu redor, fossem eles reais ou imaginários. Nesse teatro do vai e vem, o jogo de interesses mútuos rolava por baixo dos panos, por trás das mascaras e enganava os mestres, os alunos, os leigos, os espertos e a eles mesmos. A convicção da verdade de suas vidas fraldadas era tamanha que que viviam bem dentro de romances proibidos, contos de fada, disputas vencidas, vinganças arquitetadas, destinos cruzados e predestinados, era viver num mundo repleto de personagens sem pagar nada por isso: o vilão, a mocinha, o herói, o rival, os servos, senhores de terras, os cúmplices... Prisioneiros de suas ambições, mas, quando a verdade chega para libertar a quem pediu verdade e justiça, pouco resta além da dor da solidão. Então decidimos fugir, encarar o novo e desconhecido pois feliz é aquele que se aventura sem nada a devolver.. (Terras estranhas e solidão, eis o destino do viajante). Então na amargura de estar sozinho, conjura-se aos deuses clemencia pois, revelada a verdade, todos foram embora e não se viu o obvio: que no teatro das ambições cada um caminhou sozinho, onde nenhuma verdade foi dita nada de verdade aconteceu. Caminhamos o tempo todo só.
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Ritual de desapego, o ritual da partida.
Caminharam um ao lado do outro o tempo que lhes foi permitido, o tempo que conseguiram estar juntos. Entre jogos e desafios, conversas e desabafos, existiu com os dois uma cumplicidade mutua, que ultrapassava os limites da linha ténue entre a amizade e o amor. Existia ali um carinho sem igual, que poucos podiam destruir ou mesmo ameaçar, num espaço de tempo que pertencia somente a eles. Houve quem tentou minar, quem da li tentou tirar proveito, até mesmo quem por vingança, ciumes ou inveja cuspiu no próprio prato em que comeu, amaldiçoou a boa sorte e deleitou-se em cama alheia. Ainda assim, de nada abalou entre os dois, ele gostava dela como a poucas gostava igual, e ela, dele certa vez quase se apaixonou, mas nunca houve nada entre eles, tão pouco os beijos a imaginação lhes permitiu fazer recordação, o que havia acontecido entre eles, estava mais no intimo que na história. Ainda assim, a roda do tempo da vida com o seu senhor veio lhes visitar, e como num jogo de sorte, propôs um novo desafio: disse o senhor do tempo em quanto girava a roda, que era a hora de mudar, que aquela história invejava até os deuses, e a relação dos dois tinha que por fim terminar. Ela decidiu, ele aceitou por respeito a ela, a partir da quele momento não mais se falariam como antes, não no mesmo timbre de voz ou na mesma linha de pensamento, não se olhariam mais nos olhos, não na profundidade de antigamente, contemplando a alma e compartilhando segredos, e principalmente, até que o tempo se esquecesse, não mais se tocariam pele com pele, corpo co corpo, nem ao menos um aperto de mão que não fosse em publico, seria para ela, tão pecaminoso como profanar o próprio espirito. Estava ela então inclinada ao celibato? Claro que não, o senhor do tempo antes de girar a roda, sussurrou em seu ouvido: ela teria tantos homens em sua cama o quanto quisesse, aquele ali a penas, da relação que invejava o olimpo, aquele não poderia ser consumado em amor e luxuria, todo o mundo além, a ela pertencia, junto a toda liberdade e felicidade do seu novo mundo, esse era o ritual de passagem dela, nova vida com novas pessoas e novas terras a desbravar. Dado o prazo da profecia a ser contado a partir da próxima volta da roda do tempo, onde valeria o novo acordo, olharam um para a face do outro com olhar e semblante de despedida, terminava ali muitas histórias vividas e outras que nem haviam começado, e ao contemplar no olhar um a alma do outro, decidiram se despedir e se amar pela primeira e ultima vez. Foram então as mãos que tocaram o corpo um do outro, os pelos que se arrepiaram ao toque da pele, a nudez revelada para ser gravada com carinho nas retinas, foi a boca que sentiu por fim, depois de tanto querer, o sabor da outra boca, e os corpos que por um breve instante se tornaram um só. Foi como cruzar pela primeira e unica vez duas linhas que vinham em paralelo a muitos anos. Num ponto de convergência, em fração de segundos, contemplaram juntos a face de Deus, e quando voltaram em terra, já não eram mais os mesmo, estavam prontos para partir, prontos para deixar ir, sem nada a esperar e com os corações leves de certezas e paz. Viveram ali, antes do tempo os separar o momento mais intimo da sua amizade, e na cumplicidade que os uniam, fizeram juntos o ritual do desapego, da partida. Quando abriram os olhos, não havia mais o senhor do tempo nem sua roda intolerante, olharam entre si, e perceberam que não eram mais os mesmo e nem o lugar em que estavam, familiar aos dois. Não mais se tocaram ou trocaram olhares como os de antigamente, só assim valia o acordo feito entre eles e o tempo, mas viveu cintilante dentro de cada um, desde ritual de despedida, a certeza da missão cumprida, e sempre que pensavam um no outro, a distancia, estavam novamente juntos, cúmplices de uma vida bem aventurada, e com uma leveza na alma que invejaria os deuses de qualquer mitologia.
Ritos: Passagem, Raiz e Desapego
Seguimos uma vida de rituais, alguns como o de passagem, que nos transforma, é como a borboleta que antes de ganhar asas foi lagarta e no seu ritual de transformação, passou longos dias envolta em um casulo vendo apenas o seu interior. Ou o menino que saiu de sua cidade e se forjou homem em terra estrangeira, de língua estranha e de poucos amigos, este também teve em sua viagem um ritual de anos, de passagem e de mudança. A também o ritual que nós faz ficar, que cria raízes, é o trote do adolescente ao chegar na faculdade comparada ao faraó mumificado, para ficar eternizado na história, pode ser também as palavras de eu te amo, que faz quem ia querer ficar. Por fim, a mais um ritual, que só pode vir depois de todos os outros, o do desapego, da partida, o que termina com as histórias não acabadas, ou então que define de uma vez o que não estava definido, é o ritual que liberta, que revela, o apocalipse de um momento na vida de cada qual, é o homem abandonado que queima as cartas e fotos da mulher que o abandonou, é a adolescente que abdica a tudo para esquecer um único amor não correspondido, é o condenado pedindo misericórdia a Deus antes de ser executado, é o samurai enquanto desembainha sua espada antes de uma luta de morte, é a extrema unção que damos a nossa própria alma quando dizemos adeus.
Toda Mulher é uma Puta
Toda mulher é uma puta. Inclusive a sua mãe. Toda mulher é uma puta. Inclusive a sua. Toda mulher é uma puta. Inclusive. Toda mulher é uma puta, até que se prove o contrário. Toda mulher é uma puta e cobra barato. Toda mulher é uma puta e tem seu valor. Toda mulher é uma puta e merece respeito. Toda mulher é uma puta, graças a Deus.
Toda mulher é uma puta. Quando dá na primeira noite. Quando não dá no primeiro encontro. Quando dá o cu. E quando não dá também. Toda mulher é uma puta se posa pelada. Se sai de sainha. Se sai sem calcinha. Toda mulher é uma puta quando finge o orgasmo. Quando cospe. E quando engole também. Toda mulher é uma puta chupando buceta.
Toda mulher é uma puta maldita quando fecha as pernas pra você. Toda mulher é uma puta desbocada quando fala palavrão. Atrevida quando te desafia. Sem-vergonha quando dá mole, quando dá de quatro, quando dá motivo. Quando apanha. Calada. E quando apanha. Gritando. E quando denuncia. Quando enfrenta. Quando reage. Puta mãe solteira. Quando faz um aborto, quando tira o útero. Quando joga a criança no lixo. Puta.
Toda mulher é uma puta se senta de perna aberta, se peida, se arrota, se coça o saco. Quando ganha mais que você. Quando é mais inteligente, mais sexy, mais bem sucedida, mais vivida e mais gostosa que você. Toda mulher é uma puta quando manda em você. Toda mulher é uma puta quando come mais mulher que você.
Toda mulher é uma puta mesmo sendo um cara. Mesmo se tiver barba e bigode, um pau enorme e pentelhos grossos. Seu vizinho e seu irmão. Toda mulher é uma puta se for o seu zelador. Todos somos umas putas quando estamos. Amargos, cansados, famintos, angustiados, magoados, desenganados. E quando temos dor de barriga. E quando pisamos no calo de alguém. Quando tudo dá errado. E na vitória, somos putas. E ganhando na megasena. Putas!
Então somos todos umas putinhas arrombadas no inferno e nos restaurantes fast-food. No alto do Himalaia e rodando bolsinha na alça de acesso da Marginal. Afinal puta que é puta não conhece fronteira, moral nem contra-mão. Puta que é puta não pede perdão. Nem permissão. Puta que é puta paga sua própria fiança. E sabe os filhos que tem.
De: Deproposito.com
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Sobre o homem que começou a voar depois de conhecê-la
Quando se conheceram e gostaram tanto um do outro, ele escutou melhor as coisas e em seus olhos as linhas do mundo ficaram mais acentuadas do que antes. Ele ficou mais inteligente, mais desperto, e imaginou mais coisas para preencher os seus dias. Considerou atividades que antes lhe pareciam vagamente intrigantes, mas que agora pareciam urgentes e que, ele pensou, deviam ser feitas com sua nova companhia. Ele sentiu vontade de voar em equipamentos levíssimos com ela. Sempre se sentiu intrigado por planadores, pára-quedas, ultraleves e asas-deltas e agora sentia que este seria um aspecto de sua nova vida: que formariam um casal que voaria nos finais de semana e nas férias, em pequenas aeronaves. Aprenderiam a terminologia. Entrariam em clubes. Teriam algum tipo de trailer ou uma van bem grande, em que se transportariam a novos lugares para apreciarem lá de cima. O tipo de vôo que o interessava era próximo ao solo - menos de trinta metros acima da terra. Ele queria ver as coisas se movendo rapidamente abaixo dele, queria poder acenar para as pessoas lá embaixo, ver animais selvagens correndo e contar os golfinhos que nadavam para longe da praia. Sua esperança era de que esse seria o tipo de vôo que ela quisesse fazer também. Ele ficou tão fixado na idéia dessa pessoa, deste vôo e desta vida cingida, que não tinha certeza do que faria se não conseguisse realizá-la. Mas era estranho, ele pensou, que embora a noção de tal vôo fosse dele e que ele seria o responsável pela realização deste plano, ele precisava de outra pessoa, esta nova pessoa em seu mundo, para poder implementá-lo. Ele não queria realizar este vôo sozinho; preferia não voar a voar sem ela. Mas se pedisse para ela acompanhá-lo e ela expressasse reservas ou não ficasse inspirada, ele ficaria com ela? Será que poderia? Ele decide que não. Se ela não o acompanhar na van com as asas cuidadosamente dobradas, ele terá de partir, sorrir e partir, e então olhará novamente. Mas, quando e se ele encontrar uma outra companhia, ele sabe que seu plano não vai ser de voar. Será outro plano com outra pessoa, pois, se ele voar próximo à terra, será com ela.
De: (A Fome de Todos Nós - Dave Eggers)
Assinar:
Postagens (Atom)




