A verdade dói, mas liberta... Bem disse aquele quem falou: "Há de libertar para estar liberto", e este é um processo cruel e doloroso. Sentia-se ele confortável sentado na sua almofada de verdades não ditas, convicções forjadas e um agradável senso de puritanismo que o obrigava (ainda que não fosse tão difícil) a cultivar um largo e confiável sorriso no rosto. Vivia ela, na mentira do mundinho perfeito que criava para si, gerava verdades absolutas e falas convenientes aos personagens que habitavam o seu redor, fossem eles reais ou imaginários. Nesse teatro do vai e vem, o jogo de interesses mútuos rolava por baixo dos panos, por trás das mascaras e enganava os mestres, os alunos, os leigos, os espertos e a eles mesmos. A convicção da verdade de suas vidas fraldadas era tamanha que que viviam bem dentro de romances proibidos, contos de fada, disputas vencidas, vinganças arquitetadas, destinos cruzados e predestinados, era viver num mundo repleto de personagens sem pagar nada por isso: o vilão, a mocinha, o herói, o rival, os servos, senhores de terras, os cúmplices... Prisioneiros de suas ambições, mas, quando a verdade chega para libertar a quem pediu verdade e justiça, pouco resta além da dor da solidão. Então decidimos fugir, encarar o novo e desconhecido pois feliz é aquele que se aventura sem nada a devolver.. (Terras estranhas e solidão, eis o destino do viajante). Então na amargura de estar sozinho, conjura-se aos deuses clemencia pois, revelada a verdade, todos foram embora e não se viu o obvio: que no teatro das ambições cada um caminhou sozinho, onde nenhuma verdade foi dita nada de verdade aconteceu. Caminhamos o tempo todo só.

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