Caminharam um ao lado do outro o tempo que lhes foi permitido, o tempo que conseguiram estar juntos. Entre jogos e desafios, conversas e desabafos, existiu com os dois uma cumplicidade mutua, que ultrapassava os limites da linha ténue entre a amizade e o amor. Existia ali um carinho sem igual, que poucos podiam destruir ou mesmo ameaçar, num espaço de tempo que pertencia somente a eles. Houve quem tentou minar, quem da li tentou tirar proveito, até mesmo quem por vingança, ciumes ou inveja cuspiu no próprio prato em que comeu, amaldiçoou a boa sorte e deleitou-se em cama alheia. Ainda assim, de nada abalou entre os dois, ele gostava dela como a poucas gostava igual, e ela, dele certa vez quase se apaixonou, mas nunca houve nada entre eles, tão pouco os beijos a imaginação lhes permitiu fazer recordação, o que havia acontecido entre eles, estava mais no intimo que na história. Ainda assim, a roda do tempo da vida com o seu senhor veio lhes visitar, e como num jogo de sorte, propôs um novo desafio: disse o senhor do tempo em quanto girava a roda, que era a hora de mudar, que aquela história invejava até os deuses, e a relação dos dois tinha que por fim terminar. Ela decidiu, ele aceitou por respeito a ela, a partir da quele momento não mais se falariam como antes, não no mesmo timbre de voz ou na mesma linha de pensamento, não se olhariam mais nos olhos, não na profundidade de antigamente, contemplando a alma e compartilhando segredos, e principalmente, até que o tempo se esquecesse, não mais se tocariam pele com pele, corpo co corpo, nem ao menos um aperto de mão que não fosse em publico, seria para ela, tão pecaminoso como profanar o próprio espirito. Estava ela então inclinada ao celibato? Claro que não, o senhor do tempo antes de girar a roda, sussurrou em seu ouvido: ela teria tantos homens em sua cama o quanto quisesse, aquele ali a penas, da relação que invejava o olimpo, aquele não poderia ser consumado em amor e luxuria, todo o mundo além, a ela pertencia, junto a toda liberdade e felicidade do seu novo mundo, esse era o ritual de passagem dela, nova vida com novas pessoas e novas terras a desbravar. Dado o prazo da profecia a ser contado a partir da próxima volta da roda do tempo, onde valeria o novo acordo, olharam um para a face do outro com olhar e semblante de despedida, terminava ali muitas histórias vividas e outras que nem haviam começado, e ao contemplar no olhar um a alma do outro, decidiram se despedir e se amar pela primeira e ultima vez. Foram então as mãos que tocaram o corpo um do outro, os pelos que se arrepiaram ao toque da pele, a nudez revelada para ser gravada com carinho nas retinas, foi a boca que sentiu por fim, depois de tanto querer, o sabor da outra boca, e os corpos que por um breve instante se tornaram um só. Foi como cruzar pela primeira e unica vez duas linhas que vinham em paralelo a muitos anos. Num ponto de convergência, em fração de segundos, contemplaram juntos a face de Deus, e quando voltaram em terra, já não eram mais os mesmo, estavam prontos para partir, prontos para deixar ir, sem nada a esperar e com os corações leves de certezas e paz. Viveram ali, antes do tempo os separar o momento mais intimo da sua amizade, e na cumplicidade que os uniam, fizeram juntos o ritual do desapego, da partida. Quando abriram os olhos, não havia mais o senhor do tempo nem sua roda intolerante, olharam entre si, e perceberam que não eram mais os mesmo e nem o lugar em que estavam, familiar aos dois. Não mais se tocaram ou trocaram olhares como os de antigamente, só assim valia o acordo feito entre eles e o tempo, mas viveu cintilante dentro de cada um, desde ritual de despedida, a certeza da missão cumprida, e sempre que pensavam um no outro, a distancia, estavam novamente juntos, cúmplices de uma vida bem aventurada, e com uma leveza na alma que invejaria os deuses de qualquer mitologia.
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