
Me desculpe por chegar assim, sem avisar. Não que eu não tenha planejado, mas também não o faço por maldade, não havia uma malicia, ou uma segunda intenção, talvez, seja apenas por saudade, até porque já faz tanto tempo, que eu nem se quer tenho mais o direito de tocar no assunto, mas foi inevitável não pensar em você agora. Ontem eu presenciei uma recordação nossa, envergonho-me em lhe dizer que talvez tenha sido uma das recordações mais infantis que já tive a nosso respeito, mas, que me tocou profundamente, de alguma forma. Ontem, estava em pé, aguardando na fila da Opera de Paris e poucos metros a minha frente, havia um casal, uma mulher de pele muito branca e longos cabelos negros, e um rapaz magro de cabelos curtos. Ela usava uma boina e um cachecol vermelho, e ele, óculos. A distancia em que eu estava não consegui escutar com detalhes o que falavam até porque meu Frances nunca foi grande porcaria, mas sem dificuldade, como você sabe, era possível ler a cena apenas prestando um pouco mais de atenção. O rapaz, o garoto, era provavelmente mais novo que ela, não me pergunte, não sei dizer ao certo quanto. Ele nitidamente nunca havia estado ali, ou talvez nem em teatro algum, de mãos dadas ele perguntava coisas a ela a cada minuto, e apontava todos os detalhes do saguão de entrada e da primeira galeria do teatro, cobrando informações e explicações sobre o local e seus segredos, ela, entusiasmada, explicava minuciosamente cada detalhe do que sabia, horas despejando grande quantidades de informações ao rapaz, outras, falando pausadamente quando percebia que seu companheiro não acompanhava seu raciocínio, o foco da explicação só mudava quando ela percebia nele um sorriso de gratidão e compreensão, ela então retribuía e a conversa mudada o foco para outro canto interessante do teatro, nos poucos momentos em que ela não lhe explicava nada, também não se falavam nada, apenas estavam de mãos dadas ou abraçados, não era possível ver, mas ainda assim estavam se comunicando, de alguma forma, e isto me fez lembrar de você, me fez lembrar de nós.
Não me pergunte, eu também já gastei todos os neurônios possíveis tentando me recordar onde foi que nós nos perdemos, mas não consegui. Durante um tempo eu cheguei a pensar que a culpa havia sido minha, pois na hora de lhe devolver tudo o que você havia me ensinado eu não tive nada para lhe oferecer, que na hora de fazermos a troca, onde você se penduraria em meu braço e eu lhe explicaria cuidadosamente sobre algo do seu interesse, eu talvez não tenha tido nada a lhe dizer...
...Não consegui concluir a história, não consegui concluir o texto, nem o raciocínio...
... Somente parei, pensei... e continuei pensando em você.
Nada mais. Sinto muito.
Ass. Saudade
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