
Foi com lagrimas nos olhos que seu irmão acenou para lhe dar adeus no momento da partida com o coração apertado de saudade, mesmo com a certeza do reencontro em um futuro muito distante. Enquanto isso, em uma família humilde nascia uma criança, incerta de seu futuro, e a nove meses aguardada com ansiedade. O pequeno bebê trouxe muita alegria para seus pais, que o amaram mais do que se é possível amar alguém, e em meio a muito amor, essa criança cresceu. Ainda na infância se admirava com os pequenos trabalhos manuais, gostava de improvisar seus próprios brinquedos, latinhas de refrigerantes e tampinhas de garrafas, tornavam-se carrinhos, ônibus e caminhões, tudo que a criatividade e o sonho lhe prometessem fazer. Na adolescência conheceu a puberdade, agora não lhe bastava só o amor dos seus pais, dos avos, dos tios, nem do irmão mais novo, para ele, agora as garotas eram sua nova descoberta, a muito já havia largado os brinquedos de sucata, mas, para suas novas distrações, era preciso algum dinheiro, pois garotas gostam de ser mimadas. E entre amigos e garotas, ele se desdobrou para arranjar seu primeiro emprego. Já quase adulto, ele já havia feito muitas coisas, descoberto muitas outras, e guardava com sigo ainda recordações de coisas muito simples, mas que lhe davam o gostoso prazer da saudade, a saudade dos bolinhos de chuva que sua mãe fazia nos dias de chuva, o chocolate quente nos dias frios e até mesmo os picolés que seu pai lhe comprava nas tarde quentes, sentia saudades dos dias em que soltava pipas com seu avô, das historias de sua avó e dos programas que passavam na TV nos domingos a tarde. Mas ele não tinha tempo pra mais nada disto, pois agora ele era um homem adulto, já havia trabalhado em quase tudo, fora lavador de carros, carteiro, carpinteiro, escritor, mecânico de bicicletas, poeta, tentará também ser musico, ator, bailarino, mas foi de verdade com a fotografia que ele se encontrou. Tinha um carinho especial pelas imagens que capturava, não somente por sua beleza, mas principalmente, porque acreditava que cada foto registrada, registrava também uma lembrança, que seria recordada sempre que alguém revisse a foto. Ele queria muito que alguém tivesse fotografado suas tarde chuvosas com os bolinhos de sua mãe ou o chocolate quente nos dias frios, mas como naquele tempo, não existia maquina fotográfica, ele guardava carinhosamente estas lembranças na memória, e apenas lá, exatamente junto das lembranças que tinha do dia em que conheceu seu grande amor. Ele já havia amado e sido amado por muitas mulheres, mas como todo mundo, uma ele amou mais do que qualquer outra, um amor daqueles que nos prende vendo uma fotografia dela na parede, e recordando de todos os momentos bons, de uma só vez. E assim ele envelheceu, e conforme envelhecia, conhecia mais de perto um sentimento comum a todos que um dia nascem, a morte, primeiro se despediu de seus avós, presenciou o sofrimento de seus pais com a saudade da perda e a certeza do nunca mais, assistiu cuidadosamente os procedimentos fúnebres, sem se dar conta de que poucos anos depois estaria enterrando seus pais também. É claro que estes antes puderam aproveitar seus netos, pois ele, a esta altura da historia, já havia casado, conhecido um grande amor, uma grande companheira, e com ela teve filhos, três, que cresceram e conhecerem a morte pela primeira vez vendo a partida de seus avós, os pais de seu pai, que sofreu a perda com a dor da saudade e a certeza do nunca mais. E assim ele se tronou velho, criou seus filhos, que lhe deram netos e bisnetos, e a família cresceu. Aos oitenta e poucos anos, sua esposa, sua companheira de aventuras, de viagem durante tantos longos anos, decidiu que estava cansada de viajar, despediu-se carinhosamente do tão amado esposo, com quem viverá tantas lembranças gostosas, e decidiu dar a ele uma ultima tarefa, e ele então a enterrou e a assistiu partir também, não mais na certeza do nunca mais, mas sim na esperança de um reencontro, na mesma esperança, que aos oitenta e poucos anos, o fez lembrar em uma tarde chuvosa, de como gostava muito dos bolinhos de chuva de sua mãe, de como admirava seu pai, da honra de ter conseguido criar seus filhos de forma honesta e bonita, sentiu então uma imensa saudade de seu irmão, durante toda uma vida seu melhor e fiel amigo, pensou então que havia cumprido seu papel, sua missão. Na mesma tarde chuvosa, seus filhos reuniram no hospital, já tristes lamentando o diagnostico letal do médico sobre seu tão amado pai, eles, agora, tinham medo do adeus, da dor da saudade e da certeza do nunca mais. Ele ali, hospitalizado, com dor, porém pleno de seu dever cumprido, esperou apenas a chegada do seu ultimo filho, que vinha de longe para se despedir. E foi exatamente no final da tarde, quando a chuva parou de cair, que ao pressentir a presença do ultimo filho chegando a porta do hospital, que ele se despediu da vida, na certeza do alívio de quem viveu da melhor maneira que pode, e assim partiu.
Em quanto isso, muito longe da li, foi com lagrimas nos olhos, que um irmão que a uns oitenta e poucos anos esperava, agora matava a saudade com o retorno de seu melhor amigo, e com um abraço caloroso de quem acredita e espera, ele pode ver também a tão amada mãe com seus bolinhos de chuva e o admirado pai que sempre se confortou, ali, esperando-o com a alegria do reencontro, na certeza da eternidade.
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